Revolta dos Malês: causas, desenvolvimento e legado
Descubra as causas, o desenvolvimento e o legado da Revolta dos Malês, importante movimento de escravos muçulmanos na Bahia colonial.

Em 1835, a Bahia colonial foi palco de um dos mais marcantes levantes de escravizados na história do Brasil: a Revolta dos Malês. Esse movimento foi liderado por homens muçulmanos africanos e libertos, conhecidos como malês, que planejavam mudanças profundas na estrutura social baiana. A revolta reuniu religiosos, artesãos e ex-combatentes africanos que buscavam autonomia cultural e religiosa em um contexto de forte repressão colonial. Para quem deseja se aprofundar no tema, uma excelente leitura sobre história da escravidão no Brasil traz novas perspectivas sobre essa luta por liberdade.
Contexto histórico da Bahia colonial
A Bahia, no início do século XIX, era um dos principais centros do tráfico negreiro e da economia açucareira. A população negra, composta por escravos e libertos, vivia submetida a severas restrições de liberdade e prática religiosa. O sistema de sesmarias no Brasil Colonial organizava a distribuição de terras, mas excluía amplamente a população negra, empurrando muitos para áreas periféricas de Salvador. As fortificações costeiras, como descrito em Fortificações Costeiras no Brasil Colonial, refletiam a preocupação com invasões estrangeiras, mas não protegiam os direitos dos escravizados e libertos.
Origens e perfil dos Malês
O termo “malês” provém de uma corruptela de “imale”, que significa muçulmano em iorubá. Esses africanos eram, em sua maioria, muçulmanos praticantes que haviam chegado ao Brasil vindos do Golfo da Guiné. Após a libertação, muitos migraram para Salvador, onde desempenhavam funções de artesãos, professores e comerciantes. A educação religiosa e a proficiência em escrita árabe formavam o ponto de união entre os participantes. Além das convicções religiosas, fatores econômicos, como a proibição de associação e dificuldades para exercer ofícios, motivaram a articulação do levante.
Desenvolvimento do Levante
Preparativos e liderança
Durante meses, os líderes malês, como Ahuna e Bilal, organizaram encontros secretos em casas de aluguéis na região do Pilar e do Santo Antônio Além do Carmo. Eram distribuídas cópias manuscritas do Alcorão e escritos em árabe, que circulavam entre os seguidores. A escolha do dia 14 de janeiro de 1835 não foi ao acaso: coincidia com festividades cristãs, garantindo certa distração das autoridades. Cada participante recebia um código para identificar companheiros, e homens livres facilitavam a compra de armas de fogo e facas em aldeias vizinhas.
Principais confrontos
Na madrugada de 24 de janeiro, cerca de 600 malês partiram em direção ao Pelourinho, munidos de armas leves. As ruas estreitas dificultaram a rápida movimentação, permitindo que a polícia local, apoiada por tropas auxiliares, repelisse o grupo. Houve confrontos violentos perto da Igreja de São Francisco e no Terreiro de Jesus. A falta de reforços e o cerco de insurgentes traíram a surpresa inicial, resultando em dezenas de mortos e feridos entre os revoltosos.
Repressão e consequências imediatas
Após o levante, as autoridades combatiam não apenas os líderes, mas toda a comunidade muçulmana local. Mais de 70 participantes foram julgados, com penas que variaram entre deportação para outras províncias e execução. Muitos malês capturados foram enviados para Palmares, um antigo quilombo no interior. A repressão também incluiu medidas para proibir práticas culturais africanas, reforçando patrulhas e intervenções militares em bairros de presença negra.
Legado na história brasileira
Influência em movimentos abolicionistas posteriores
A coragem dos malês ecoou nas lutas emancipacionistas que se seguiram. Abolicionistas do final do século XIX frequentemente mencionavam o levante como exemplo de resistência organizada contra a escravidão. A memória da revolta inspirou intelectuais e ativistas a questionarem o caráter “pacífico” da transição para a abolição, reforçando a ideia de que a liberdade foi conquistada também pela força.
Marcas na cultura e memória coletiva
Nas manifestações culturais da Bahia contemporânea, como o samba de roda e as celebrações do período carnavalesco, é possível perceber ecos dos valores de resistência dos malês. Em Salvador, instituições de pesquisa e grupos de teatro reencenam episódios do levante, garantindo que as novas gerações reconheçam esse capítulo fundamental. A preservação de manuscritos em árabe, hoje estudados por historiadores, reforça a importância de manter viva a história de comunidades marginalizadas.
Fontes e historiografia
Os principais registros sobre a Revolta dos Malês encontram-se nos autos do processo policial, transcritos no Arquivo Público da Bahia. Pesquisadores como João José Reis e Aline Helg analisaram esses documentos, oferecendo interpretações que vão das motivações religiosas às dinâmicas sociais do período. Trabalhos recentes têm buscado incorporar perspectivas africanas e islâmicas, ampliando a compreensão sobre a diáspora muçulmana no Brasil.
Conclusão
A Revolta dos Malês permanece como símbolo de luta contra a opressão e de afirmação cultural. Embora tenha sido duramente reprimida, seu legado reverbera até hoje na valorização das raízes africanas no Brasil e na história da Bahia. Estudar esse episódio é fundamental para entender a complexa trama social do período colonial e reconhecer que, mesmo em circunstâncias adversas, a busca por liberdade tornou-se força motriz de transformações profundas. Para aprofundar esse tema, confira também outras obras sobre a história da Bahia.
